A longa marcha das desigualdades – 2 Da primeira intervenção do FMI ao cavaquismo (1977/95)
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A longa marcha das desigualdades – 1 (O período 1953/77 e o fim do regime fascista em Portugal )
Entre três fortes crises económicas e financeiras, a classe política sedimenta o neoliberalismo e engorda após a chegada dos fundos comunitários. Destaca-se aí a figura mais nociva do século XX português - Cavaco Silva - só ultrapassado por Salazar.
1 – Depois do golpe de 25 Novembro, a cristalização do partido-estado PS/PSD
Após a “normalização” de 25 de novembro de 1975 e terminada a libertação das colónias africanas, ficavam os problemas estruturais de sempre – pobreza, analfabetismo e baixos níveis de qualificação, mortalidade infantil, empresariato desqualificado[1] – a que se juntavam os problemas surgidos nos últimos anos – a necessidade de reestruturar e capitalizar o enorme sector nacionalizado, mormente dos bancos, fazer face aos deficits públicos e à falta de divisas associada ao surgimento dos saldos negativos na balança de transações correntes e ainda, a austeridade, o saneamento dos custos da descolonização, a preparação para a diluição na CEE, a consolidação do novo sistema político, da democracia de mercado e da máquina da corrupção num ambiente mediático menos opaco…
A CEE representava o acto final de inclusão subalterna no espaço europeu, após séculos de incapacidade de geração de uma verdadeira classe capitalista, em benefício do rentismo e do favor público; isso ressalta da atuação nas colónias, cuja prolongada manutenção resultou essencialmente, da concorrência entre as grandes potências, que impediu a ocupação e partilha das colónias portuguesas entre si. Por outro lado, a Grã-Bretanha ao entrar no comboio comunitário, já sem pretensões de grande potência global (Harold Wilson, decretara em 1971 o fim da presença inglesa a leste do Suez), perdia também o seu interesse geopolítico em manter um Portugal como forma de conter o engrandecimento da Espanha.
O primeiro governo do PS não consegue criar soluções para fazer face à situação e, menos ainda, para uma mudança; e, em 1977, perante a degradação da situação, recorre à intervenção do FMI, associando-se ao CDS. Depois de afastado o PS do governo surgem, em 1979, três curtos governos de iniciativa presidencial (Eanes) até o poder cair na AD (PSD/CDS/PPM), numa primeira fase chefiada por Sá Carneiro; e que não irá conseguir resolver a crise financeira. De facto, Cavaco como super-ministro das finanças da AD, tenta aproveitar os danos provocados pelos planos de austeridade dos governos anteriores, produz um aumento real dos salários e uma valorização do escudo, esquecendo que a subida do preço do petróleo em 1979 e a má conjuntura internacional dali decorrente, não iriam consolidar essa política; e, pelo contrário, degradou ainda mais a balança de transações, como reduziu o investimento e voltou a fazer subir a inflação no ano seguinte.
O primeiro-ministro Sá Carneiro morre num desastre e é substituído em 1981 por um novo governo AD, fraco e dividido que, perante uma conjuntura desfavorável, agrava a balança de transações e aumenta o recurso a dívida externa, enquanto o dólar se valoriza, ao contrário do escudo, que aumenta a sua desvalorização deslizante (o crawling peg).
Daí resulta uma nova intervenção do FMI em 1983/85, sob a forma de extended facility, imposta a um governo PS/PSD que teve ainda de gerir a integração na CEE, no âmbito de uma frustrada e saloia competição para que Portugal entrasse antes de Espanha; após a entrada viria a ser adoptada a postura do “bom aluno” que sela apenas a subalternidade, a subserviência, no seio de uma UE que discrimina mais daquilo que une[2].



