CAPÍTULO DOIS -- Parte 3
Geopolíticas
da Energia Russa
Em termos de padrão de vida,
taxas de mortalidade e prosperidade económica, a Rússia, em 2004, não era uma
potência de classe mundial. Em termos de energia, era um colosso. Em termos de
massa terrestre, ainda era a maior nação do mundo, estendendo-se desde o
Pacífico até à porta da Europa. Tinha um vasto território, recursos naturais
enormes e as maiores reservas de gás natural do mundo. De mais a mais, era a
única potência à face da Terra com capacidades militares latentes, para se
igualar às dos Estados Unidos, apesar do colapso da URSS e da deterioração das
forças armadas russas desde então.
Uma observação do mapa esclarece por que é que o Pentágono tem interesse geopolítico em ter bases no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque - o controlo militar dos fluxos
de petróleo na Ásia Central
A Rússia tinha mais de 130.000
poços de petróleo e cerca de 2.000 depósitos de petróleo e gás. As reservas de
petróleo foram estimadas em 150 biliões de barris, semelhantes ao Iraque. Poderiam
ser muito maiores, mas ainda não haviam sido exploradas devido à dificuldade de
perfurar as regiões remotas do Ártico. No entanto, com os preços do petróleo,
em toda a parte, acima de 60 dólares o barril, tornaram economicamente viável
explorar essas regiões remotas.
A rede estatal russa de gasoductos,
o “sistema unificado de transporte de gás”, incluía uma vasta rede de oleoductos
e estações de compressão que se estendiam por mais de 150.000 quilómetros em toda a Rússia. Por lei, somente a Gazprom, propriedade do Estado, podia usar o
gasoducto. A rede talvez fosse o bem mais valorizado do Estado russo, além do
próprio petróleo e do gás. Aqui estava o coração da nova geopolítica energética
de Putin.
Já em 2001, quando se tornou evidente que as repúblicas bálticas estavam prestes a unir-se à NATO, Putin apoiou o
desenvolvimento de um novo porto de petróleo importante, na costa russa do Mar
Báltico, em Primorsk. Este Sistema de Oleoductos Bálticos (BPS), concluído em Março
de 2006, diminuiu muito a dependência da exportação através dos novos Estados
da NATO, como a Letónia, a Lituânia e a Polónia. O Báltico era a principal rota de
exportação do petróleo da Rússia, das províncias petrolíferas da Sibéria
Ocidental e Timan Pechora. Agora, o BPS era capaz de transportar mais de 1,3
milhões de barris/dia de petróleo russo para os mercados ocidentais.
Em Março de 2006, o antigo chanceler
alemão, Gerhard Schroeder, foi nomeado presidente de um consórcio público-privado
russo-alemão, a construir um gasoducto de 1.200 km sob o Báltico.
O accionista maioritário do North
European Gas Pipeline (NEGP) era a estatal russa Gazprom, a maior companhia de
gás natural do mundo. A alemã BASF e a E.On detinham 24,5%, cada uma. O projecto
de € 5 biliões foi iniciado no final de 2005 e ligaria o terminal de gás, na
cidade portuária russa de Vyborg, perto de São Petersburgo, com Greifswald, no
leste da Alemanha. Era a clássica geopolítica russa - a tentativa da Heartland
de se ligar à Europa Central. O objectivo de Churchill e, mais tarde, da Guerra
Fria de Truman, foi o de conduzir uma cunha, uma "cortina de ferro"
entre a Europa Central e o centro da Rússia. O seu objectivo era fazer da
Grã-Bretanha o mediador geopolítico indispensável ou intermediário de poder entre
as duas.
A ‘joint venture’ entre a
Gazprom e a BASF foi o último grande acto de Schroeder, como chanceler alemão.
O que provocou gritos de protesto do governo polaco, pró-Washington, bem como
da Ucrânia, que perderiam o controlo sobre os fluxos dos gasoductos da Rússia.
Apesar dos laços estreitos com o governo Bush, a nova chanceler conservadora da
Alemanha, Angela Merkel, foi forçada a engolir e a aceitar o projecto. A Rússia
era, de longe, o maior fornecedor de gás natural da Alemanha - mais de 40% das
suas importações totais de gás.
O gigantesco depósito de gás
Shtokman, no sector russo do Mar de Barents, ao norte do porto de Murmansk,
também se tornaria parte do fornecimento de gás do NEGP. Quando concluída em
dois gasoductos paralelos, a NEGP forneceria, anualmente, à Alemanha, mais de
55 biliões de metros cúbicos de gás russo.
Em Abril de 2006, o governo de
Putin começou um oleoducto da Sibéria Oriental-Oceano Pacífico (ESPO), um
oleoduto de 14 biliões de dólares, de Taishet no leste da Sibéria, para a costa
do Pacífico da Rússia. A Transneft, empresa estatal russa de oleoductos, estava
a construí-lo. Quando terminar, bombeará até 1,6 milhões de barris por dia, da
Sibéria para o Extremo Oriente da Rússia e daí para a região Ásia-Pacífico,
faminta de energia, principalmente para a China e para o Japão.
Além destas condutas, a China
estava a discutir, intensamente, com Putin, um ramal entre Blagoveshchensk e
Daqing. A rota Taishet fornecia um roteiro para a cooperação energética entre a
Rússia e a China, o Japão e outros países da região Ásia-Pacífico.
Sakhalin: as Rédeas da Russia no Big Oil


